Para quem visse de longe, pareciam estar bastante confortáveis. Porque estavam recostados em grandes puf`s amarelos, deliciosamente colocados no fundo da festa. E não concluiriam que eram namorados, pois não havia nem o afago constante dos casais apaixonados, nem a defesa constante de território dos casais estabelecidos, e nem o jogo de poder, enfado e birra constantes dos casais que já passaram do tempo de terminar. São amigos – certamente a alternativa mais votada. Mas discutem um assunto pessoal – um mais atento completaria.
Sim, eles discutiam um assunto pessoal. Sim, eles não eram namorados. Não, eles não eram amigos. Aqueles dois seres recostados em puf's amarelos no canto da festa, habitavam um lugar ainda não nomeado que, agrega o compartilhamento sem obrigações da amizade, com a intimidade física do namoro, sem, contudo, o conforto dos acordos estabelecidos do namoro e a despretensão da amizade. O terreno em que aqueles dois seres aparentemente confortáveis, recostados em puf's amarelos, no fundo da festa, haviam construído a sua relação, era um tipo de terreno ainda não estudado pela geografia. Viviam uma Relação Ainda Não Classificada. Portanto não tinham parâmetros para basear os seus incômodos e desafios. Tornando mais difícil identificar problemas e prováveis soluções, e às vezes tirando o chão de debaixo dos seus pés. Pois não era que aqueles dois aparentemente confortáveis, recostados em puf's amarelos no canto da festa, estavam discutindo, exatamente, a relação! Porque todas as relações demandam discussão, inclusive as que ainda não foram classificadas. Só não entendi ainda o aparente conforto de seus corpos e vozes. Talvez porque fosse incerto, inclusive, o limite que o desconforto tinha para a sua demonstração.
A mulher era Luciana, que estava vestida de verde, e mexia no cabelo todas as vezes que precisava organizar o pensamento. E ele era um homem bonito, parecia bom falante, mas dele não se sabe muito, porque as relações ainda não classificadas geralmente não ganham muito os espaços sociais das partes envolvidas. Aquela, por exemplo, era a primeira vez que estavam fazendo um programa onde havia conhecidos envolvidos. E ainda, durante todo o tempo, era a grande a possibilidade de todos pensarem que eles eram apenas bons amigos.
Ela havia começado a discussão. Aceitando o legado sexista que parece determinar que a necessidade de sanar os incômodos seja sempre feminina. Porque talvez o incômodo legado sexista diga que a insatisfação é uma característica feminina... Porque a mulher, desde tempos idos, procura se encaixar no molde do outro. E o comum é que se encaixe. Mesmo que fique pendurada para o lado de fora a sua perna esquerda.
Luciana começou falando assim:
- Vou embora do baile, porque não me agrada mais dançar ao som dessa música.
E como não achara tal explicação suficiente, passou longos bons minutos destrinchando porque o baile, a dança e a música não a agradavam.
O homem bom falante era também excelente ouvinte e ouviu tudo, tudo o que Luciana achava importante dizer. Ficando em silêncio até enquanto ela mexia nos cabelos, tentando transformar as suas sensações em frases lógicas e de sentido ordenado. Quando finalmente abriu a boca, foi para dizer:
- Você desabafou...!
Não, Luciana não desabafou. Luciana expôs, explicitou, compartilhou, dividiu o que estava pensando, sentindo e sendo por conta daquela relação com ele. E mais: Luciana não desabafou. Luciana se reposicionou, baseada nos seus incômodos e no terreno desconhecido que ambos caminhavam. Não era um pedido de salvamento, embora viesse cheio de emotividade. Se houve ruído entre comunicação e recepção, Luciana atribui isso também aos legados sexistas que determinam as leituras do homem e da mulher. A demonstração despudorada da emoção é tida como característica feminina, sendo que outra característica prioritariamente feminina é a fragilidade – de modo que emotividade e fragilidade tornam-se coisas interligadas, ambas de menor valor.
Em outro momento da conversa, ele "desabafou":
- Você é independente demais!
-
- Como eu posso ter certeza que você gosta de mim se você não precisa de mim?
Isso fez ela se lembrar do trecho de um livro, que diz: "Os sexos se bifurcaram: homem X mulher. A ênfase dual imperou, exigindo o surgimento da ideologia da superioridade e da inferioridade. Mulher dócil é contrapartida de homem macho. Mulher frágil é a contrapartida de macho forte." * Logo, como uma mulher que arca consigo mesma, vai validar o poder do macho provedor? E existem muitos lugares para necessitar e para prover, que não só o financeiro... Compartilhar problemas e pedir ajuda é uma coisa, usar o outro como justificativa das suas dores e alegrias, é outra. E esse jogo Luciana não joga mais. E, ela sabe, isso gera desequilíbrio, porque os papéis já estavam definidos desde muito antes dela nascer. Só que Luciana rapidamente desaprendeu a lógica dualística, apresentada mais sutilmente nos tempos atuais, mas ainda tão presente, que determina como é um homem e como é uma mulher.
Luciana parou de mexer nos cabelos, sentou-se ereta no puf amarelo, olhou com carinho para o homem bonito, bom falante, excelente ouvinte, e tantas outras coisas mais, ali na sua frente, e quis explicar que os fatos dela não fazer apelos, não chorar atenção e não exigir mudanças, era simplesmente porque só lhe era válido receber aquilo que o outro voluntariamente estivesse disposto a dar. E o que poderia acontecer era ela não ficar feliz com o que estava recebendo. E ambos estavam certos, não é verdade? Mas quando as pessoas estão querendo dançar músicas diferentes, é hora de encerrarem a parceria... Uma pena que aprendemos que os bailes têm que durar para sempre, sob pena de não terem sido válidos.
Luciana quis dizer que ela era frágil também; talvez muito frágil... E que todas as pessoas, independente de serem homens ou mulheres, são frágies em alguns momentos, e que ela até achava isso bastante poético...
Luciana quis abraçá-lo, e que o mundo congelasse naquele momento.
Mas ela apenas levantou do puf amarelo e se despediu.
E até a porta de saída ainda teria que atravessar a festa inteira.
* A Mulher a Família no final do século XX - Fátima Quintas